8 de mar. de 2014

Medicina não é sacerdócio!

Qual médico/estudante de medicina nunca ouviu a frase: "medicina é um sacerdócio". Entendo o sentido: dedicação integral, doação, abnegação. Qualidades supostamente positivas e verdadeiras até certo ponto. Compreendo. Mas, perdoem-me, essa afirmação me incomoda (talvez incomode os sacerdotes também)!
Da mesma forma que muita gente não gosta de médico, não gosto de sacerdotes. Nada pessoal, conheço padres por quem tenho muita admiração; pelo que são, não pelo que fazem; assim como admiro alguns médicos pelo que fazem e não pelo que são.
Talvez tenha ficado confuso. Tenho muitas razões para pensar que medicina não é um sacerdócio, a falta de apreço por essa função social não é uma delas. Apenas declarei acima meu "conflito de interesse".
Sacerdotes ministram cultos em um altar, acima e distante, pelo menos alguns metros, das pessoas. O que aprendi em semiologia médica é que os olhos do médico e do paciente devem estar na mesma altura para que não se estabeleça uma relação de superioridade (somos iguais perante Deus, não?) e a proximidade deve ser suficiente para sentir o hálito da pessoa. O médico toca no seu paciente (ou pelo menos deveria), independente do cheiro, da roupa, das feridas, ou de portarem doenças contagiosas. Agora pergunto: alguém já notou a reação das pessoas quando entra alguém mal vestido na missa?
Ouvimos as mais diversas queixas e "confissões" diariamente em nossos consultórios. Eu mesma já usei a frase: "o consultório médico é como um confessionário, aquilo que é dito ali, morre ali". Em relação ao sigilo pode até ser uma boa comparação. Mas a conduta é totalmente oposta. Fico me imaginando numa consulta:
- O sr parou de fumar?
- Não.
- Pecado grave. Seiscentas Ave Marias e novecentos Pai Nosso. Que a Nª Srª da Boa Saúde tenha piedade do sr. Siga em paz.
Acho que essa é a maior diferença entre medicina e sacerdócio. A igreja, seja ela qual for, tem dogmas que as pessoas devem seguir, de preferencia, sem questionar; e se o pobre infeliz não segue é pecado, castigo, penitência. Julgamento atrás de julgamento. Mas só um pouquinho, Jesus não disse: "ame o próximo como a ti mesmo"? Será que julgar, exigir, punir é amar o próximo como a si mesmo??
Certa vez ouvi numa missa: "que Deus abençoe  as famílias dizimistas". Pensei que estava alucinando. Me imaginei falando em público: "que Nª Srª da Boa Saúde abençoe todos os pacientes particulares".
Estou falando de coisas que vi e vivi, por isso não falo das evangélicas. Mesmo porque, igreja evangélica, pelo menos o que vejo na TV, é empresa, não religião. Esses tempos cheguei a rir sozinha. Profissão: pastor. Nada contra, mas religião?? Tudo que se fala é dinheiro, bens materiais, emprego (sim, já ouvi uns cultos na TV)... Carros com adesivo: "foi Deus que me deu". Vontade de perguntar: "Qual Deus? Volkswagen, Ford?? E a oração? "Hyundai nossa que estás no céu, santificado seja vosso HB20, venha nós a vossa Tucson, e o Veloster nosso de cada dia nos dai hoje" E para completar, o sacerdote é "profissional" (pensando bem, alguns médicos poderiam mesmo ser comparados com pastores).
Não creio que o bom médico seja aquele que dedique seu tempo integralmente à medicina, porque a vida é erguida e sustentada sobre diversos pilares, um pilar apenas não dá conta dessa estrutura complexa chamada homo sapiens; mais dia menos dia desaba ou fica "capenga" (como acontece com muitos sacerdotes inclusive).
Medicina é trabalho, um dos pilares mais importantes da nossa vida, ao qual dedicamos a maior parte do tempo e que nos provê sustento material. Por isso qualquer que seja a profissão escolhida, deve ser exercida com amor e dedicação, mas nunca com exclusividade. Exclusividade e qualidade não são sinônimos. Creio que muitos trabalhos e profissões são mais úteis e benevolentes que as igrejas e boa parte de seus sacerdotes.
Praticar medicina como interna tem sido um exercício diário de paciência, de compreensão e amor, uma tentativa constante de tratar os outros como gostaria de ser tratada independente dos meus erros, minhas crenças, meus defeitos... E como é difícil! É preciso livrar-se dos julgamentos, das preferências, das afinidades e contrariedades, é necessário uma liberdade de espírito, de pensamento que só o tempo e a maturidade vão me dar. Não é o amor condicional da igreja, que ama e apóia se a pessoa agiu conforme o esperado, se não, pune. É o amor incondicional, de pai e mãe e, suponho, do Pai divino. Muito a medicina já me ensinou, me desarmou, de modo que me considero diferente do que era há 5 anos. Mas ainda há muitas amarras para soltar.
As vezes penso que o mandamento "amar a Deus sobre todas as coisas" foi acrescentado na primeira linha para justificar a exclusividade do sacerdócio e a obediência à igreja (porque contrariar a igreja seria contrariar Deus). Amar a Deus pode ser lindo e pode mudar a sua própria vida, mas não muda nada na vida das outras pessoas. Além disso, não parece um mandamento um tanto egocêntrico para um Deus que deveria ser perfeito?
 Me parece muito mais sagrado "amar o próximo como a si mesmo". Creio que para a medicina e para o  Deus perfeito (aquele que não é egocêntrico, que não foi inventado e moldado pelas igrejas, aquele que não dá carros e sim paz, amor, conforto espiritual...), esse é o primeiro mandamento.
Por tudo isso, para mim, medicina não é um sacerdócio: está muito mais próxima de Deus ou do que quer que seja sagrado em nosso universo!

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