Conheço meu querer e a bagunça que ele traz
Ainda assim, quero
Não gosto de querer
mas quero
Vôo, grito
Quero-quero
Esse querer passarinho
que voa alto,
mas volta para o ninho.
"sem o compromisso estreito de falar perfeito, coerente ou não"
Conheço meu querer e a bagunça que ele traz
Ainda assim, quero
Não gosto de querer
mas quero
Vôo, grito
Quero-quero
Esse querer passarinho
que voa alto,
mas volta para o ninho.
Às vezes transbordo,
escorro,
escorrego em mim...
Mas levanto
desajeitada,
disfarço
e finjo que não é nada.
O escuro da noite traz a vontade
A vontade e só
E sós, voltamos ao sonho
que nos conduz pelas estradas
que a vontade quer
Mas a vontade, o que é?
marca-passo do coração,
areia para o pé...
Nesse mundo cristão,
é o oposto da fé.
02.09.2022
Não era tempo que faltava?
O tempo passa
Quem falta somos nós
Faltamos à festa, ao almoço com a família
Faltamos ao café com amigos
Faltou o abraço, a palavra de consolo,
o colo, a poesia
Faltou celebrar as pequenas vitórias,
O corpo, nossa única morada permanente
(ao menos nessa jornada)
Faltamos ao médico, ao dentista, à academia
Só não faltamos ao trabalho
Falta amor, falta compreensão, falta compaixão...
Falta o ar
O tempo?
O tempo acabou.
Trabalhar com pessoas em processo de terminalidade, inevitavelmente me faz pensar sobre a vida, o tempo, que na verdade são sinônimos. Fala-se em "tempo de vida", redundância pura.
A pergunta que mais escutamos é "quanto tempo de vida eu tenho?" mas na verdade o mais apropriado seria perguntar "quanta vida cabe no meu tempo?"
Trabalhar com doentes graves, com doenças ameaçadoras da vida, e muitas vezes em estágio já avançado me faz testemunhar aquela verdade que todos sabem: o ar vai faltar um dia e aí sim, acabou o tempo. Antes disso o tempo (e a vida) estão acontecendo...
E nós estamos fazendo o que com eles?
Presa em pressa
em sobra
excesso de resto
inútil
supérfluo
Num mar profundo de nada
me afogo
mas nado
respiro
vivo
naquele segundo de ar
que inspira a ação
de recomeçar.
Escuro sol da minha solidão
Não posso ver o que é em vão
Em tua sabedoria aprendo o que já sei
O tempo passa
Os olhos abrem
As cortinas fecham
E num aplauso silencioso,
Inicia outro espetáculo.
Inspirado em um paciente - de tantos - que vi abandonado, cego, tetraparético, acamado e lúcido, completamente dependente de cuidados de pessoas desconhecidas, dentro de um hospital igualmente desconhecido, um tanto próximo da morte. Fiquei imaginando o tamanho da sua solidão e da lucidez que deve ter conquistado nesse período, enxergando o que não pode ser visto, a essência, a verdade da impermanência, e se libertando para um novo espetáculo.
27/12/2018
Sopram ventos de mudança por aqui: que me tragam ondas boas, que deixem areia firme e levem tudo que não for meu.
Foram dois anos de muito e pouco, direita e esquerda, água ou fogo. O caminho do meio foi uma corda bamba da qual eu caí diversas vezes.
Esse tempo (ou a falta dele) me fez perceber a importância de alguns momentos de ócio para organizar os pensamentos e emoções; para criar, escrever, cozinhar... Chega de adiar planos antigos esperando o momento ideal que nunca chega.
Não é sobre largar tudo. É sobre largar o que sobra e gera tanta falta na vida. É sobre priorizar o essencial, porque esse excesso de bagagem custa caro. É sobre deixar para trás um pouco de certeza e apostar na intuição, sobre assumir riscos e mais uma vez dançar com o desconhecido... Se ele vai me pegar no colo ou pisar no meu pé só o tempo dirá. Enquanto isso, eu aprecio cada acorde dessa música.