15 de fev. de 2024

Quero-quero

 Conheço meu querer e a bagunça que ele traz

Ainda assim, quero

Não gosto de querer

mas quero

Vôo, grito

Quero-quero

Esse querer passarinho

que voa alto,

mas volta para o ninho.

Deslizes

 Às vezes transbordo,

escorro,

escorrego em mim...

Mas levanto

desajeitada,

disfarço

e finjo que não é nada.

Vontades

 O escuro da noite traz a vontade

A vontade e só

E sós, voltamos ao sonho

que nos conduz pelas estradas 

que a vontade quer

Mas a vontade, o que é?

marca-passo do coração,

areia para o pé...

Nesse mundo cristão,

é o oposto da fé. 


02.09.2022


2 de nov. de 2023

Falta

Não era tempo que faltava?

O tempo passa

Quem falta somos nós

Faltamos à festa, ao almoço com a família

Faltamos ao café com amigos

Faltou o abraço, a palavra de consolo, 

o colo, a poesia

Faltou celebrar as pequenas vitórias,

O corpo, nossa única morada permanente

(ao menos nessa jornada)

Faltamos ao médico, ao dentista, à academia

Só não faltamos ao trabalho

Falta amor, falta compreensão, falta compaixão...

Falta o ar

O tempo?

O tempo acabou.


Trabalhar com pessoas em processo de terminalidade, inevitavelmente me faz pensar sobre a vida, o tempo, que na verdade são sinônimos. Fala-se em "tempo de vida", redundância pura. 

A pergunta que mais escutamos é "quanto tempo de vida eu tenho?" mas na verdade o mais apropriado seria perguntar "quanta vida cabe no meu tempo?"

Trabalhar com doentes graves, com doenças ameaçadoras da vida, e muitas vezes em estágio já avançado me faz testemunhar aquela verdade que todos sabem: o ar vai faltar um dia e aí sim, acabou o tempo. Antes disso o tempo (e a vida) estão acontecendo... 

E nós estamos fazendo o que com eles?

13 de jul. de 2022

InsPIRAção

Presa em pressa

em sobra

excesso de resto

inútil

supérfluo

Num mar profundo de nada

me afogo

mas nado

respiro

vivo 

naquele segundo de ar

que inspira a ação

de recomeçar.

10 de mai. de 2022

Impermanência

Escuro sol da minha solidão 

Não posso ver o que é em vão

Em tua sabedoria aprendo o que já sei

O tempo passa

Os olhos abrem

As cortinas fecham 

E num aplauso silencioso,

Inicia outro espetáculo.


Inspirado em um paciente - de tantos - que vi abandonado, cego, tetraparético, acamado e lúcido, completamente dependente de cuidados de pessoas desconhecidas, dentro de um hospital igualmente desconhecido, um tanto próximo da morte. Fiquei imaginando o tamanho da sua solidão e da lucidez que deve ter conquistado nesse período, enxergando o que não pode ser visto, a essência, a verdade da impermanência, e se libertando para um novo espetáculo.

27/12/2018

Dança

 Sopram ventos de mudança por aqui: que me tragam ondas boas, que deixem areia firme e levem tudo que não for meu. 

Foram dois anos de muito e pouco, direita e esquerda, água ou fogo. O caminho do meio foi uma corda bamba da qual eu caí diversas vezes. 

Esse tempo (ou a falta dele) me fez perceber a importância de alguns momentos de ócio para organizar os pensamentos e emoções; para criar, escrever, cozinhar... Chega de adiar planos antigos esperando o momento ideal que nunca chega. 

Não é sobre largar tudo. É sobre largar o que sobra e gera tanta falta na vida. É sobre priorizar o essencial, porque esse excesso de bagagem custa caro.  É sobre deixar para trás um pouco de certeza e apostar na intuição, sobre assumir riscos e mais uma vez dançar com o desconhecido... Se ele vai me pegar no colo ou pisar no meu pé só o tempo dirá. Enquanto isso, eu aprecio cada acorde dessa música.