31 de ago. de 2018

Acordar


Acordei, me vesti, escovei os dentes: 15min p/ tomar café – apressa! Sentei para degustar minha torrada, olhei o morro e comecei a pensar: “como o cerne das nossas vidas muitas vezes é atingir expectativas alheias”.
Desde a infância nos ensinam a obediência, nos ensinam a fazer o que é “certo”. Mas de quem é a certeza? De onde vem?
Não costumam perguntar como nos sentimos fazendo o que é “certo”.
E assim crescemos, cheios de contragostos, de gostos inventados e impostos.
Impostos altos por sinal, que pagamos por esses gostos que nem gostamos.
Aí o “Certo”, que disse com quais brinquedos podíamos brincar (menino, carrinho; meninas, boneca), a cor de roupa que deveríamos usar (meninos, azul; meninas, rosa), foi ficando cada vez mais exigente, querendo mandar nos nossos relacionamentos, profissão; foi exigindo casa, carro, filhos, viagens caras, corpo escultural, rosto sem rugas. Mas quem é esse tal “certo”? Que não aceita a imperfeição inerente a condição humana? Que não aceita a diferença, maior beleza da nossa espécie? Que sufoca a liberdade?
Que “certo” é esse? Que vem como uma avalanche, soterrando nossas vontades verdadeiras, nosso choro e nosso riso, nossa compaixão.
Porque nos subordinamos, reduzindo nossa existência a uma tentativa constante de atingir expectativas de valor questionável?
Vejo nos olhos das pessoas “o amor reprimido”, “o grito contido”,”o samba no escuro”. Meus olhos também cantam assim.
Mas o ruído da cidade grande abafa essa melodia, nos mantendo presos: no trânsito, no trabalho, no shopping; reféns do medo de nós mesmos e do que pode acontecer se voltarmos a pensar... O relógio marca 7:30h,  hora de sair.