24 de fev. de 2015

Eu x os "Is"

Há muito tempo li um texto (bem conhecido por sinal), do qual desconheço o autor, que compara a vida a uma viagem de trem: a cada estação uns embarcam, outros desembarcam, uns permanecem conosco durante quase toda a viagem, outros embarcam numa estação e já desembarcam na próxima. A paisagem muda a cada instante, assim como as pessoas do vagão.
Talvez por ser um cenário muito familiar para mim (cresci olhando para uma estação de trem), nunca esqueci esse texto e quando penso em vida é isso que vejo.
Vejo mas não me conformo... Se dependesse de mim, ao fim da viagem meu vagão seria o metrô de São Paulo as 18h. 
Não, não é natural deixar pessoas, histórias, habilidades, atividades, memórias pelo caminho. Queria tudo e todos comigo. Podem me chamar de egoísta, possessiva, saudosista! Não quero objetos. Eu quero o que não se pode comprar: o amigo que a rotina afastou, o amor que não se deu, o "eu te amo" que não se falou, o "obrigado" e as desculpas que se perderam no meio do orgulho, quero fazer de novo o que poderia ter feito melhor, guardar mais momentos bons e aprender com os ruins. Não basta ser o comandante, quero ser também o fiscal e o cobrador do meu trem, controlar entrada, permanecia e saída de tudo e de todos. 
Peculiar foi o que me levou a escrever esse texto: é verdade que fatos recentes me fizeram pensar na vida, mas o que fez transbordar esse sentimento foi a saída do grupo de monitores de semiologia médica depois de muito hesitar: a certeza de que é hora de sair e ao mesmo tempo algo me dizendo "mas isso é tão meu, não quero que deixe de ser". 
Então a razão me mostra que é inevitável, em 4 meses isso que hoje é "tão meu", tão seguro e familiar vai deixar de ser: a faculdade, o "Castelinho" (vulgo HCPA), os colegas nos corredores, o lanche no Planetário e a "monitoria de semio". 
Assim funciona com tudo... Ciclos se fecham e reiniciam o tempo todo sem que tenhamos muito controle sobre isso, as vezes adiamos decisões por medo: medo desse sentimento de perda e o novo que está por vir, medo de sair da zona de conforto, de perder um controle que na verdade nunca existiu... Agora eu poderia terminar com "então que venha o inesperado e chega de ir contra o inevitável", mas não vou ser hipócrita... Vou continuar me defendendo desses "Is" (Inesperado, Inevitável, Inadiável) mesmo sabendo que uma hora eles vão me pegar contrapé.