Talvez por ser um cenário muito familiar para mim (cresci olhando para uma estação de trem), nunca esqueci esse texto e quando penso em vida é isso que vejo.
Vejo mas não me conformo... Se dependesse de mim, ao fim da viagem meu vagão seria o metrô de São Paulo as 18h.
Não, não é natural deixar pessoas, histórias, habilidades, atividades, memórias pelo caminho. Queria tudo e todos comigo. Podem me chamar de egoísta, possessiva, saudosista! Não quero objetos. Eu quero o que não se pode comprar: o amigo que a rotina afastou, o amor que não se deu, o "eu te amo" que não se falou, o "obrigado" e as desculpas que se perderam no meio do orgulho, quero fazer de novo o que poderia ter feito melhor, guardar mais momentos bons e aprender com os ruins. Não basta ser o comandante, quero ser também o fiscal e o cobrador do meu trem, controlar entrada, permanecia e saída de tudo e de todos.
Peculiar foi o que me levou a escrever esse texto: é verdade que fatos recentes me fizeram pensar na vida, mas o que fez transbordar esse sentimento foi a saída do grupo de monitores de semiologia médica depois de muito hesitar: a certeza de que é hora de sair e ao mesmo tempo algo me dizendo "mas isso é tão meu, não quero que deixe de ser".
Então a razão me mostra que é inevitável, em 4 meses isso que hoje é "tão meu", tão seguro e familiar vai deixar de ser: a faculdade, o "Castelinho" (vulgo HCPA), os colegas nos corredores, o lanche no Planetário e a "monitoria de semio".
Assim funciona com tudo... Ciclos se fecham e reiniciam o tempo todo sem que tenhamos muito controle sobre isso, as vezes adiamos decisões por medo: medo desse sentimento de perda e o novo que está por vir, medo de sair da zona de conforto, de perder um controle que na verdade nunca existiu... Agora eu poderia terminar com "então que venha o inesperado e chega de ir contra o inevitável", mas não vou ser hipócrita... Vou continuar me defendendo desses "Is" (Inesperado, Inevitável, Inadiável) mesmo sabendo que uma hora eles vão me pegar contrapé.
Não é que não temos muito controle sobre eles (os ciclos).... É que não temos nenhum controle, mesmo! A natureza, que é tão cheia de vida, é igualmente cheia de morte, e ambas se sucedem infinitamente. A interrupção dessa alternância na busca por reter os momentos leva a uma morte pior que a morte, porque precisamos nos manter mais no mundo interno do que no externo para obtermos a sensação de que paramos os ciclos. Só que o mundo interno é um lugar extremamente delicado. A gente esquece que faz parte da natureza e que nosso psiquismo vai nos empurrar para a alternância dos ciclos. E aí o que era um confortável lugar controlável ornamentado pelos elementos oníricos que escolhemos em pouco tempo ganha as tempestades que nosso inconsciente manda, e elas são bem angustiantes. Temos que deixar a vida morrer para não viver essa morte pior que a morte, cheia de fantasmas e suas tempestades. Se não tivéssemos deixado a infância morrer, não teria havido adolescência.... outras coisas morreram para que houvesse a faculdade e a monitoria de semio... Agora a semio morre e nasce uma jovem médica que vai viver e se apaixonar ainda mais por muitas coisas fantásticas dessa profissão linda! O que vem por aí é maravilhoso, Ju! Um beijo grande! Adorei o blog ;)
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