O dia? normal!
O dia começa ensolarado, com uma caminhada cedo, quando o ar ainda não cheira a fumaça, com uma brisa leve trazendo o perfume da primavera e uma música boa distraindo os pensamentos.
No hospital, sem maiores novidades, a última evolução é a minha do dia anterior (ufa!). Rever os colegas/amigos pelos corredores, tomar o velho café depois das visitas, almoçar no SUS Delicious, round e um chimas na redenção em boa cia para não perder o hábito.
Cotidiano, rotineiro, compassado.
Parece pouco a oportunidade de desfrutar de cada parte do corpo: mover-se, andar, sentir, ver, ouvir, comer, pulsar. Então empenhamos uma busca desenfreada por mais. Queremos preencher um vazio que ninguém pode acessar... É um "nada" vindo sabe-se de onde ou porquê, que guarda os mistérios da vida, esconderijo de toda a nossa ignorância e impotência. É o pedaço de solidão que carregamos desde o dia do nascimento até a morte, nosso fardo talvez: nascemos e morremos sós.
Lutamos contra isso o tempo todo, queremos nos cercar de pessoas e atividades, sair da rotina, fugimos, mas tudo que conseguimos é uma lapso, um esquecimento breve, uma sensação efêmera de plenitude. No instante seguinte nos deparamos com a mesma normalidade e a velha inquietude intrínseca à existência humana.
Nada é suficiente até o momento que o normal é privilégio: levantar da cama, ir ao banheiro sozinho, degustar um bom churrasco ou simplesmente respirar!
Nesse momento não tem para onde fugir: não dá mais para dançar, correr ou gritar, não dá para abraçar o amigo, sentir o beijo, o banho de mar, não dá para caminhar descalço na areia ou ouvir uma música bem alto, não dá tempo de pedir desculpas ou falar "muito obrigada", "eu te amo". O corpo não obedece, a voz não sai, a pele não sente, é uma alma presa num amontoado de proteína inerte. E tenho toda a certeza que o maior desejo nessa hora é um dia "normal"!
Que possamos agradecer, desejar e desfrutar de todos os dias normais enquanto eles ainda são uma realidade!
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