28 de fev. de 2018

Enfim, internista

    Durante minha infância e adolescência tive apenas um sonho, que tornou-se realidade no auge dos meus 26 anos: dia 19 de junho de 2015 tornei-me médica. Cheguei a sonhar (literalmente) que morrera nesse dia e acordara do outro lado feliz, realizada. De fato era assim que me sentia.
     No dia 20 de junho a realidade me acordava: desempregada e com a primeira dívida a quitar (o boleto do CRM). Assim comecei a perceber que sonho e realidade se parecem tanto quanto "Rush" e Ton Jobim. Além disso, não sabia mais o que desejar, a única coisa que sempre quis, havia conseguido; e sentia-me angustiada a cada pré-plantão, culpada porque ainda que me esforçasse não estava oferecendo o melhor àqueles pacientes. Então resolvi que queria ser uma grande médica, ou pelo menos melhor que eu era. Motivada por esse sentimento, me inscrevi para a residência em Clínica Médica; e no dia 30/03/2016 (o ultimo dia possível) fui chamada para iniciar as atividades no hospital Ernesto Dornelles.
    Passado um mês já notava diferença. Estudava bastante, comparecia a todas as aulas, participava com dedicação de todas as atividades. Estava amando, plenamente satisfeita. Aí começaram os plantões e o acúmulo de dias sem folga. Comecei a me sentir cansada... Por vezes não conseguia acordar a tempo para as atividades da manhã, não conseguia estudar tanto quanto gostaria. Sonhava (literalmente) com pacientes, exames, prescrições erradas, era como se trabalhasse todo o dia e toda noite todos os dias; sentia-me esgotada física e mentalmente.  Para esses momentos meus colegas foram essenciais: seis pérolas que tive a honra de encontrar e conviver durante esses dois anos. Agradeço por cada café, cada risada (ou choro), pelo ombro, pelo socorro nas horas de aperto (são sempre os primeiros que me lembro, tamanha confiança que me inspiram).
    Outros personagens fundamentais dessa história foram os pacientes: lembro de um fim de semana ensolarado e eu sozinha em Porto Alegre, chateada. Entro no quarto da Dona Terezinha, que até então mal abria os olhos e balbuciava sons incompreensíveis nas minhas insistentes tentativas de dialogo; e ela com os olhos vivos pegou a minha mão, deu um beijo e falou "muito obrigada". Saí do quarto com olhos marejados e com a certeza que estava exatamente onde deveria estar. Sempre que me senti desanimada, veio dos pacientes a força, a lembrança do verdadeiro motivo de eu estar ali. Aos pacientes, meu muito obrigada mais sentido.
    Sobre os preceptores, é como se cada um pegasse um pouco do seu super-poder, colocasse num potinho e nos desse. Estão todos aqui muito bem guardados e prontos para serem usados sempre que necessário. Cada um tem uma característica diferente, uma "arma" diferente para derrotar o inimigo. Nós, agora, temos um pouquinho de cada. Que fique registrado um sincero agradecimento. Pelos super-poderes, pelos pacientes emprestados, pelo tempo, pelos conhecimentos, pelos conselhos ou mesmo pelas amenidades do dia-a-dia.
    O estágio de São Jerônimo, tão cansativo quanto gratificante e enriquecedor... Lá há uma compreensão mais clara que a vida tem um ciclo e que devemos respeitá-lo, lá vivemos ensinamentos profundos com pacientes que por vezes mal sabiam ler, e daí a prova que sabedoria e conhecimento não são necessariamente sinônimos. Uma oportunidade e tanto para aprender medicina, fazer o melhor com o recurso que se tem (exige muita habilidade); e a empolgação da Dra Ana faz tudo parecer mais interessante.
    Aos poucos o peso foi saindo de cima dos ombros, a rotina deixou o trabalho mais leve, e os frutos começaram a ser colhidos, como se uma névoa densa se dissipasse... Finalmente comecei a entender algumas coisas.
    Primeiro, não podemos prestar atenção aos pensamentos que surgem quando estamos com muito sono (não à toa privação de sono é um método de tortura). Tudo parece pior e maior do que realmente é. A vida volta a ficar boa depois de 8h bem dormidas (pelo menos para mim).
    Segundo, comunicação é fundamental e "network" é a palavra chave do sucesso. Demorei para aprender isso, mas espero ter aprendido.
    Devemos ser fiéis, sobretudo, a nós mesmos. Estamos constantemente sob julgamento, somos absolvidos e condenados o tempo todo. Pessoas diferentes julgam diferente, momentos diferentes mudam a impressão. Não há verdade absoluta. O único julgamento que importa é o da nossa própria consciência; é com ela que teremos que dormir todos os dias.
    Para os pacientes, não há bem maior do que resolver o seu problema. Podemos ser cordiais, afetuosos, e isso importa! Mas não mais do que resolver o problema. Para isso não tem outro caminho se não estudo e dedicação!
    Termino a residencia hoje menos angustiada, menos apavorada, menos adolescente. Não tenho mais aquela visão mágica de que dois anos fazendo o quer que seja me tornarão uma grande médica. Mas esses dois anos de medicina interna me tornaram adulta, consciente que a "grande médica" está e estará sempre em construção.
    A maior riqueza que a residência me trouxe foi a conformidade com a inquietude.
    Se me perguntarem hoje qual é o meu sonho, eu diria "ser uma grande médica". E meu maior desejo é que ele nunca se realize. Que eu nunca me sinta grande o suficiente para parar de crescer.
Lembrando Galeano: "entonces para que sirve la utopia? para eso, sirve para caminar."