A timidez me acompanha desde remotos tempos quando minha mãe praticamente me obrigava a brincar com outras crianças na pracinha.
Talvez essa seja uma das razoes de eu gostar de escrever. Poder expressar os pensamentos sem imediatismo, sem preocupação com que os outros estão pensando naquele momento.
É a diferença do teatro para o cinema: falar é teatro e escrever é cinema, só vai ao ar de pois de revisado e editado; grava-se mil vezes a mesma cena se for preciso (e mesmo assim não fica bom as vezes).
Certa vez na faculdade uma professora propôs a atividade de escrever uma carta a um paciente que teria marcado nossa trajetória acadêmica até então. Aquele paciente havia me marcado profundamente mas eu nunca consegui transparecer isso nas minhas visitas durante o período que o acompanhei, porém na carta ficou claro: enquanto a redigia me emocionei, fiquei brava, fiquei feliz... Nesse momento eu percebi que conseguia expressar meus sentimentos de forma muito mais fidedigna através da escrita. Era apenas um trabalho de aula (infelizmente, pois gostaria que ele tivesse lido) e foi valorizado como tal; serviu de modelo para as turmas seguintes; mas não foi nada além de sentimentos "passados a limpo".
Desde então, as decisões mais importantes da minha vida, emocionalmente falando, foram escritas. Quando preciso trazer as sensações para o plano consciente, escrevo.
A medicina, tal como percebi naquele dia em que presenciei a alegria de um nascimento pela manha e a tristeza da necropsia de um suicida a tarde, é encantadora do ponto de vista da complexidade do ser humano, infinito em suas possibilidades.
Esse é o grande desafio; a arte e o encanto da medicina. As patologias são cada vez mais estudadas, bem como seus métodos diagnósticos e tratamento; le-se e aprende-se. Mas a humanidade, tem-se ou não.
Sempre que me sinto infeliz de alguma forma, profissionalmente, rebato: "work hard, have fun, no drama".
No drama? Como?
Hoje perguntei a um paciente de 30 anos, com diagnostico de esquizofrenia, internado por outro motivo, que pede para ir embora todos os dias, por quê ele queria tanto ir p/ casa e ele respondeu: "porque aqui eu ouço vozes e vejo pessoas de noite, e não consigo dormir; e em casa eu me sinto mais seguro". Me destruiu.
Toda vez que eu me sinto destruída pelo sofrimento de alguém vem a raiva e a culpa por não poder amenizar esse sofrimento (quando eu não posso) e me da vontade de ser cabeleireira!
Mas eu quis e lutei muito para poder lidar todos os dias com a tristeza, a dor, a raiva... E não creio que foi por acaso. Se eu me importo é porque devo. Porque assim são as relações humanas. Feitas de afeto. Eu afeto alguém e alguém me afeta. Nunca gostei de relações vazias. O prazer do tato se tem até com uma almofada mas os sentimentos, eles nos tornam humanos.
E se me perguntarem hoje meu maior medo como médica eu diria que, assim como maior desejo, é enxergar o sofrimento das pessoas e a alegria; e me encantar da mesma forma como me encantei há alguns anos atras, na faculdade, quando vi os extremos da vida no mesmo dia e pensei: "é isso que eu quero pra mim".
Lindo texto, Jubs!!! Adorei :)
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