10 de ago. de 2019

Feliz todos os dias


Tem uma música que diz assim: “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não”.
Lembro disso no show do Caetano ou quando escuto Chico Buarque. Lembro também quando esqueço a chave, ou esqueço a janela aberta e chove (né pai?), lembro quando falo de política e até mesmo quando passo na frente do Boticário ou quando o Fernando me diz: “tu vai passar perfume para dormir?” (então eu penso, “nossa, to igual ao meu pai”).
Na doutrina espírita, a qual me foi ensinada desde pequena, acredita-se, ao contrario do que muitos afirmam, que escolhemos sim a família em que nascemos, com suas qualidades e defeitos, de acordo com o nosso merecimento e com o que pensamos ser o “terreno mais fértil” para o nosso desenvolvimento.
Lembrei disso ontem ao enviar mais um vídeo de música brasileira aos meus pais (habito frequente entre nós).
Isso me fez voltar no tempo que eu era criança e meu pai, músico e compositor, ouvia canções (às vezes no vinil ainda) e me explicava as letras das músicas, seu contexto histórico... E como eu gostava! Cresci ouvindo essas musicas brasileiras cheias de significados nas entrelinhas, algumas censuradas no passado. Muito conversávamos sobre isso e eu cresci apreciando e valorizando o poder da arte, a importância do pensamento crítico, das pessoas que se sacrificaram no passado para que hoje tenhamos maior liberdade de expressão e de ação.
Nossas vidas sempre foram muito pautadas pela música, muitos momentos marcados por ela e ainda hoje ela nos une em pensamento, em conversa, em apreciação.
Não sei se concordo com todos os preceitos da doutrina espírita mas acho que escolhi sim nascer nessa família. Não consigo imaginar como teria sido minha vida sem esse jeito meio maluco, as vezes impulsivo, mas sempre cheio de afeto, amor e liberdade de pensamento dos meus pais. Não consigo imaginar minha vida sem esse contato diário com a música, com a arte. E não consigo dissociar disso a pessoa que sou hoje, meu jeito de ver o mundo, de ver os outros e a mim mesma. Nem mesmo meu jeito de ver o dia dos pais, que é muito lindo para quem tem pai (dentro dos preceitos da família tradicional cristã) e para quem tem dinheiro para comprar presentes; do contrário, é apenas um dia de frustração.
 E sim, eu tenho os dois, pai (biológico, heterossexual) e dinheiro para o presente, mas também tenho o desejo de que todos possam ser gratos a essas pessoas que ESCOLHEMOS para guiar nossos passos neste mundo, sejam elas pais, mães, tios, avós, hetero ou homossexuais ou alguém com quem não temos nenhum vínculo genético; seja essa gratidão expressa por presente, um beijo, um abraço, um texto ou uma oração. Que nossos corações sejam livres para amar sem rótulos, nem mesmo o rótulo de “pai”, que foi só mais uma das nossas instituições.
Eu amo meu pai, muito! mas não pelos 23 cromossomos que ele deu, não por que posso chama-lo de “pai”, não porque ele é casado na igreja, não pelo dinheiro que ele tem (ou não tem) e sim pela pessoa que ele é, pelo amor que me deu, pelas músicas que me mostrou, pelas histórias que me contou, por ter guiado meus passos, por estar presente, por se importar.
Essa é a verdadeira conexão, aquela que transcende as distâncias materiais, a que dura eternamente.
Obrigada pai! Feliz todos os dias!

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