17 de mar. de 2016

Republica...

Porto Alegre, 17 de março de 2016.
Primeira vez que inicio um texto assim, não por acaso. Quero registrar propositalmente esse momento, quero lembrá-lo mesmo que a memória se renda aos apelos da idade. 
Sempre fui (sabe-se lá porquê) bastante patriota. Uns dirão que é tolice, burrice. De fato. Não é exatamente racional. Mas como toda a forma de amor, parafraseando um título de Lulu, é tola. Então lá estava eu com 9 anos olhando a bandeira do Brasil hasteada, tremulando em contraste com o céu azul de 7 de setembro, ouvindo o hino nacional e me emocionando, me arrepiando, sentindo orgulho. Assim era todos anos, assim é até hoje: quando toca o hino paro em posição de respeito, como me ensinaram, canto a plenos pulmões (não bato palmas) e me sinto a mesma criança de 17 anos atrás. Não amo o PT, não amo PSDB, muito menos o PMDB, amo o Brasil! 
O que eu quero("o que eu quero Mario Alberto?" desculpem, não consigo pensar nessa frase e não lembrar o vídeo do Porta dos Fundos. Mas não, meus desejos não são esses nesse momento)?? eu quero um país para criar meus filhos, não quero ir embora, quero fazer do Brasil, da minha pátria amada, um país melhor. O Brasil, que apesar de todos os problemas, me deu alimento da sua terra, a água do seu rio, o deleite das suas praias, o calor do seu sol, a alegria da sua gente... Gente que às custas de alta carga tributaria, proporcionou que eu estudasse gratuitamente desde o maternal 1 até a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que permite que meu pai receba tratamento de saúde de alto custo e alta complexidade gratuitamente através do SUS. O que eu posso fazer para retribuir a sociedade, ou melhor, para contribuir com a sociedade? Ah é, esqueci, tudo que eu consegui foi mérito meu, através de impostos que eu paguei (porque só eu pago impostos). Acho que vou embora e avisar o mundo que o Brasil é uma merda. Melhor, vou bater panela para Dilma sair e fica tudo resolvido: o PMDB do Cunha assume a presidência e vai ser o fim da corrupção!
Mas amanhã não vou devolver o troco que me deram a mais na padaria, vou andar pelo acostamento para chegar mais rápido no trabalho, vou ficar "pedalando" o ultimo paciente do ambulatório para o meu colega atender, vou atender meu paciente de má vontade porque eu não estou contente com meu emprego...
Nós vivemos em sociedade, todos nós, inclusive os que tem orgulho de dizer que são "italianos ou alemães de pai e mãe", o Lula, a Dilma, o Aécio e o Cunha, somos brasileiros, goste ou não goste, somos e fazemos a sociedade. 
Se os serviços de saúde não funcionam como deveriam em parte é por nossa culpa, que muitas vezes, não ouvimos, não prestamos atenção no nosso paciente, não nos qualificamos ou simplesmente não queremos prestar esse serviço. Se as instituições públicas não funcionam, grande parte é pela burocracia, mas também pelos servidores, que não prestam bons serviços, saem mais cedo, chegam mais tarde... Hoje eu vou à rodoviária e a caixa me logra $10, fico indignada "só no Brasil mesmo", amanhã a caixa do mercado se atrapalha e me da $10 a mais "ah, não vou devolver, garanto que eles logram um monte de gente também"... Dá para perceber o efeito em cadeia dessas atitudes? Hoje eu não presto um bom serviço, amanhã eu não recebo um bom serviço. Hoje eu sou esperto, amanhã alguém é esperto comigo.
Então, se queremos melhorar o Brasil, sugiro que, primeiramente, passemos a gostar do Brasil, porque nosso país é muito maior que um governo ou um partido político. Segundo, chega de transferir responsabilidades! Não é a Dilma ou Lula, melhor, também é! Mas somos NÓS! Eles são nós, são nada além do nosso reflexo. 
Porque eu comecei esse texto com uma data? Porque tenho certeza que estamos passando por um momento histórico muito importante, me parece que nossa democracia está adolescendo, instituições e legislação se fortalecendo, população se manifestando, todos falam, pensam se preocupam com política, com economia, com questões sociais.. A corrupção e seus desastres estão vindo á tona, pessoas com prestígio, dinheiro e poder estão sendo investigadas e punidas (como nunca antes), todos, de um modo geral, tem refletido sobre o assunto. 
Nosso gigante, como todo adolescente, está em crise, normal, parte da evolução ao meu ver, tempo de definições, de consolidação do caráter... No auge da crise, conflitos entre judiciário e executivo, povo na rua, ameaças de greve, recessão econômica, o velho dicotomismo direita x esquerda turvando a visão de muita gente, me pergunto: que tipo de adulto seremos?? Aquele que vive debaixo da asa do pai, esperando do governo provisões e soluções, culpando o governo por tudo de bom ou ruim que acontece?  ou aquele que assume suas responsabilidades, que faz seu trabalho bem feito, cumpre seu papel de cidadão e FAZ um governo melhor??
Eu quero ler esse texto daqui a alguns anos e entender exatamente o que está acontecendo agora, fico imaginando qual vai ser o nome historico desse período...  Será que vou contar aos meus netos historias da "republica esquerdalha" ou "na epoca da republica coxinhaço era assim assim..."
O presente deturpa os fatos por vezes, grandes catástrofes políticas e sociais ocorreram com aprovação popular, às custas de manipulação das informações, a exemplo dos regimes totalitaristas da Europa, da própria ditadura no Brasil, o golpe de 64 quando Jango anunciou as reformas de base... As verdades, especialmente as inconvenientes, mudam. Espero estar aqui para conhecê-las, espero que mais do que o Lula assumir o ministério ou a Dilma ser deposta, tudo isso sirva para alguma coisa, que a gente não lembre das bandeiras e camisetas do Brasil só na hora do protesto ou da copa,  que a gente goste mais do Brasil, afinal, ninguém cuida daquilo que não gosta.

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